18 maneiras de não preparar uma pizza, digo, sites!

O leitor Patrick Cunha enviou um link para mim referente a um texto clássico da internet, que muitos aqui já leram e outros ainda não, apesar dos seus mais de 10 anos de existência. Trata-se do texto “Se vendêssemos pizzas como produzimos sites”, uma relação bem-humorada entre a criação de sites e a preparação de pizzas.

Por muito tempo o autor desse texto foi tido como anônimo mas finalmente ele apareceu: trata-se de Zeh Fernando, criativo webdesigner/developer que trabalha com internet desde os seus primórdios e tem colecionado excelentes trabalhos durante sua carreira.

Segundo Zeh, a relação com Pizzas e Sites ocorreu quando trabalhava em uma agência, em 1999, atendendo um cliente que nada sabia de internet. Mas cá pra nós, a internet comercial brasileira tinha apenas 4 anos. Portanto é compreensível que o mercado naquela época não tivesse achado ainda a melhor maneira de expor sua marca em tão nova mídia. Mesmo tendo profissionais competentes como Zeh Fernando.

Hoje ainda temos situações semelhantes às do Zeh, infelizmente. Porém isso é uma questão de tempo. Os clientes de 10 anos atrás agora compreendem melhor a internet. Os de hoje, daqui a 10 anos também compreenderão. Faz parte do tempo de aprendizado.

Já que temos ainda webdesigners com os mesmos problemas vividos há 10 anos pelo Zeh, proponho um diálogo com esse texto, fazendo uma atualização dele, compilando tudo que foi aprendido nesses 14 anos de internet por clientes e webdesigners, misturando e confrontando com os seus 18 tópicos. No final teremos as 18 maneiras de não preparar uma pizza, digo, sites!

* O cliente liga pra gente pedindo uma pizza e esta mais preocupado com a aparência da pizza do que o conteúdo real dela.

Sabemos que site com forma mas sem conteúdo é algo inútil que pode ser jogado fora. O design ajuda e muito, mas ajuda somente aos sites que possuem um bom conteúdo. Aqui realmente prevalece a máxima “o que importa é a beleza interior”.

* No meio do trabalho de confecção da pizza, o cliente liga pedindo pra você mandar pra ele um preview de como esta ficando a pizza para a aprovação (ou desaprovacao) dele.

Jamais devemos fazer isso. Quem cozinha sabe como os alimentos ficam horrorosos antes de ficarem prontos. Ao ponto de dizer “pô, será q isso vai dar certo?”. E no final tudo fica bonito e delicioso. Portanto, ao criar um site, evite mostrá-lo semi-pronto. Determine datas para apresentação de etapas prontas, como a apresentação do layout já acabado ou de todo o site navegável, com o conteúdo devidamente exposto e implementado. Deixar o cliente sentar do seu lado enquanto você cria? Jamais!

* Após o cliente acima receber a pizza-preview, ele pede pra fazer “uma pequena alteraçãozinha”, substituir a mussarela amarela por mussarela verde, simplesmente porque ele gosta mais de verde. Isso faz com que você tenha de jogar a pizza antiga fora e produzir uma nova, que alem de dar mais trabalho ficara bem mais feia.

Tá vendo? É isso que acontece quando você mostra o site inacabado. Ao menos que você goste de ouvir pitaco e alterar a receita no meio do caminho.

* O cliente te liga numa noite qualquer pedindo 500 pizzas para serem feitas em 15 minutos, pois ele tem uma festa pra ser iniciada e resolveu te ligar só agora.

Como você deve respondê-lo? Você quer ser amigo do seu cliente? Então diga não. “Não há a menor possibilidade disso ocorrer. Se eu dissesse o contrário, estaria mentindo pro senhor.” E se ele não gostar, tudo bem, vai procurar algum outro super-homem para fazer os 500 sites. Como você é um simples mortal, melhor perder esse cliente para ter uma vida melhor e mais tranquila com outros clientes que ouvem você.

* Você destaca seus melhores pizzaiolos pra atender a esse cliente porque seu pedido é ‘mais importante’ e deixa as pizzas dos outros clientes de lado, o que faz com que todos eles liguem pra reclamar que a pizza deles não esta pronta dentro do prazo.

Erro comum e fatal. Você não deve destacar nenhum profissional seu para atender ninguém com urgência. Quem faz isso é Corpo de Bombeiros, BOPE, SAMU, plantonistas do Hospital Geral… você é webdesigner, desenvolvedor. Se “urgências” estão ocorrendo na sua vida, das duas uma: ou você não está planejando direito o calendário dos seus projetos ou você está mimando demais o seu cliente. Cliente vem com trabalho urgente? Corte logo. Mesmo cobrando a mais pela urgência, você poderá perder seus clientes menores, que na maioria das vezes são os que realmente sustentam o seu trabalho.

* Após você produzir quase todas as pizzas do cliente acima, ele te liga avisando que não precisa mais de pressa porque ele errou a hora. Na verdade, você ainda tinha 4 horas pra produzir as pizzas.

Erro de cálculo ou prática comum entre os gerentes de projetos e clientes, que pressionam o profissional com uma data próxima para assim terem um ou dois dias a mais caso haja algum atraso por parte de outros profissionais da equipe.

* O cliente te pede pra colocar as azeitonas de forma simétrica de modo a dar destaque à area central da pizza, que afinal é a area mais importante do disco e é a primeira area que o cara que for comer a pizza deverá ver ao bater o olho nela.

Hoje sabemos que a área mais visualizada de um site é semelhante a nossa leitura textual, da esquerda para a direita, de cima para baixo. Portanto a área superior e à esquerda do site costuma ter mais destaque.

* O cliente ouve falar de um novo “ingrediente da moda” e simplesmente se convence de que sua pizza devera ter esse ingrediente, apesar do ingrediente ser inútil nesse caso e só dar mais dor de cabeça pra ser implementado.

O que Zeh Fernando quis dizer no “ingrediente da moda” eram as animações flash inúteis. Até hoje isso persiste. Sabemos que tudo aquilo que não acrescenta, não informa e nenhuma utilidade tem, devemos retirar, seja efeito, animação, texto ou imagem. E que se lasque a moda.

* O cliente pede uma entrega urgente que precisa ficar pronta em 2 minutos. Após você usar os seus melhores pizzaiolos, até contratar pizzaiolos freelancers pra fazer o serviço e atrasar novamente os outros servicos, você faz a entrega pro cliente e ele demora 4 horas pra começar a comer as pizzas.

Ocorre normalmente com aqueles que dão cabimento a trabalhos urgentes. Dá nisso.

* Ele pede que a pizza funcione perfeitamente mesmo pra quem gosta de pizzas pequenas, medias ou grandes, sem saber que isso demanda no triplo de esforço necessário, e não quer saber de pagar a maispor isso.

Na época a questão das resoluções de vídeo, navegadores e compatibilidade de tecnologias eram bem mais complicadas que hoje. Era necessário fazer sites completamente diferentes para resoluções de 640 x 480 e 800 x 600. Hoje, apesar dos diversos tamanhos de tela e aparelhos acessando à internet, é mais fácil criar um site compatível com diversas resoluções e tecnologias, graças ao css e tableless, do que 10 anos atrás.

* Você faz uma pizza maravilhosa e entrega pro cliente, e ele então liga pra você pra reclamar que ele não tem garfo e faca, que são necessários pra comer a pizza.

É, essa questão de gosto ainda permanece. Afinal tem gente que gosta de comer pizza com a mão, outras com garfo e faca. Fazer o quê?

* Um possivel cliente te liga pra pedir uma pizza e quando você pergunta que pizza que ele quer, ele te responde que não sabe, que só quer uma pizza porque todo mundo que ele conhece tem uma.

Perigossíssimo se você cair nessa. Principalmente se o cliente vier com “confio na sua culinária, faça uma pizza aí qualquer que você ache gostoso que eu vou achar também”. Mentira! Todo mundo neste planeta espera alguma coisa. Quando o cliente lhe pede um site, ele tem na cabeça o que é bom ou o que é ruim no ponto de vista dele. É justamente essa expectativa que vai fazer ele dizer no final “gostei” ou “não gostei”. Se o cliente aparecer para você dizendo isso, não aceite de primeira. Investigue, pergunte o que ele gosta, o que não gosta, as cores preferidas e por aí vai. Tente arrancar dele aquele visual de site que paira sobre sua cabeça mas que ele não consegue dizer em palavras.

* O cliente te liga, pede uma pizza super incrementada e trabalhada, e simplesmente não entende como você pode cobrar tão caro por essa pizza, sendo que o boteco da esquina dele faz uma pizza por bem menos.

Deixe ele fazer a pizza no boteco de esquina. Pelo menos antes você mostrou pra ele o que é bom. Mas mostre apenas o “cardápio”. Não faça o site sem receber nada por isso. Afinal, tem gente disposta a pagar apenas uma pizza de mussarela do Habibs. Mas uma pizza do Habibs não é e nunca será o mesmo valor de uma Pizza Hut.  Portanto, quem pode pagar uma pizza do Habibs, vá pro Habibs, quem pode pagar uma pizza do Pizza Hut, vá para lá. Normal.

* Outro cliente te liga e pede uma pizza e fica abismado com o preço que você que cobrar pela pizza, e ele te diz que o sobrinho dele faz uma pizza por um décimo do preço que você pede (ele usa um template de pizza semi-pronta comprada no Carrefour).

Deixe ele fazer a pizza com o template de pizza semi-pronta. Um dia ele se toca e quem sabe, 10 anos depois, venha pedir um orçamento novamente para você vendo que o site dele está parecido com todos os concorrentes que usaram o mesmo template de pizza semi-pronta. E claro, você cobrará mais caro e sorrirá ao ver o cliente aceitando seu valor.

* O cliente te liga e pede uma pizza linda, mas avisa que ja pediu a mesma pizza pra 5 outras pizzarias e só pagara a que ele gostar mais.

Basta não fazer a pizza. Se você já tem um portfólio, não precisa mostrar um site pronto. Já pensou, ir a 5 pizzarias diferentes, experimentar uma pizza de cada uma e só pagar aquela que você aprovou? Como a vida seria mais bonita. ;)

* O cliente te liga e pede que a pizza dele tenha todos os ingredientes possíveis e imagináveis que você tem no seu estoque, mesmo os mais absurdos possíveis, achando que isso fará a pizza mais atrativa a quem for come-la.

Cabe ao profissional apresentar sua consultoria, explicando ao cliente a melhor forma e mostrando que ingrediente x ou y só irá deixar o site mais caro e nenhum efeito terá. Falou em economia de dinheiro, o cliente logo lhe dará razão. ;)

* O cliente pede a pizza, sem problema nenhum, mas você não poderá entregá-la por motivos de segurança. Ele não quer que você entre na casa dele, então você terá de entregá-la na casa do agente de segurança dele, que mora do outro lado da cidade, que então a entregará pro cliente…que mora do lado da pizzaria.

Imagino aqui que esse tipo de situação ocorre quando clientes não aceitam que o webdesigner acesse o FTP da empresa por excesso de segurança, inventando mil e uma formas de se fazer o mesmo, só que do jeito mais complicado. Só existe uma maneira de resolver isso: conversando e mostrando que dessa forma quem sairá perdendo é o cliente, com a perda de tempo que isso vai ocasionar e deixando bem claro de que tempo é dinheiro.

* O cliente não tem amigos americanos, nem espanhóis e nem nada em casa, mas mesmo assim te pede que você mande uma pizza com versões em inglês, espanhol, japonês, javanês, svenska, paquistanês, francês e gaulês.

Não tem problema nenhum. Peça as traduções, cobrando um percentual pela adaptação do site por cada tradução e diga o tempo real e necessário para isso.

Bem… depois desse papo fiquei com vontade de comer uma pizza. Aceita um pedaço?

Para o alto e Avante!

11 comentarios on “18 maneiras de não preparar uma pizza, digo, sites!”

  • Alex Falcão

    cara, muito bom esta matéria Avila.
    Já vai ser postado la na ComunidadeWEB.
    Pena que não nos veremos dia 23 ai em Fortaleza.

    Abraços

    Diga lá Alex, mas esse dia chegará. Valeu pela força!

    22-05-09 » 2:11 am »

  • luiz tarabal

    Muito bom este artigo, na duvida pense na pizza!!! rsrs

    22-05-09 » 4:30 am »

  • zeh

    Valeu pelo texto e pela menção! Nem achei que alguém fosse ligar pra isso.

    Mas é verdade, desde então algumas coisas mudaram mesmo. Novos problemas no preparo da pizza, e outros desapareceram.

    Mas só pra citar, o “ingrediente da moda” no caso do texto original era uma implementação MUITO específica de Flash Generator (recurso caríssimo na época que adicionava funcionalidades dinâmicas ao Flash) pra um uso absurdamente irrelevante (mudar cor de fundo do site). Ainda é o caso mais emblemático que me recordo de algo caro, chato, e inútil. Ou seja, é relacionado com Flash, mas não tem muito a ver com animação.

    Embora a analogia se encaixe muito bem com animações em Flash inúteis também (e mesmo sites inteiros que não precisam ser em Flash). E hoje isso se aplica a várias coisas, até a Ajax. Já vi dois sites em específico que se vangloriavam de utilizarem Ajax a rodo… sendo que ambos o fazem de uma forma que piora MUITO a experiência do usuário. Um é o http://www.kellogs.com.br (mata SEO, mata navegação/bookmarks) e o outro era um site de notícias sobre games que também conseguia destruir todas as vantagens que um site em HTML normalmente tem, mas muito mais mal “desenhado” (acho que esse saiu do ar, mas era um dos sites mais irritantes que já usei).

    E essa esqueci de citar no artigo recente que coloquei no blog, e a analogia ficou ruim de verdade, mas o exemplo das azeitonas simétricas, se me lembro bem (sério, alguns são incertos, faz tempo demais), é porque um cliente quis fazer as opções do site em volta do logo da empresa (com o logo centralizado). Uma coisa bizarra meio estilo “make the logo bigger”. Com direito a cliente fungando no cangote me instruindo a o que deveria ser mudado no layout. Experiência horrível, principalmente porque a empresa onde eu trabalhava compactuava com isso.

    Sobre o cliente que pede uma pizza e te liga pra reclamar que não tem garfo e faca, era porque o cara às vezes pedia algo que seu próprio micro não podia ver. Caso especial: esse mesmo “cliente especial” que gerou a maioria dos exemplos pediu um site pra gente super avançado, porque o site dele “não era pra pobre” – palavras do cliente (detalhe: errado, porque era um site que deveria ser usado por uma grande fatia da população, de TODAS as faixas de renda). Aí a gente foi e fez um site em Flash (péssima decisão). Aí um dia um dos caras do cliente liga pra reclamar… porque ele não tem Flash instalado e que “o site não funciona”, logo, deve ser refeito (foi feita uma versão em HTML idêntica à Flash). Ou seja: a questão é de que muitos clientes querem o site pra funcionar NA SUA máquina, e não na de sua audiência. Aquele típico cliente que tem um micro ainda configurado pra 640×480, e que então quer que seu próprio site seja em 640×480.. mesmo que isso não seja a resolução de nem 1% da audiência do site.

    Embora tenha sido um erro fazer o site em Flash (fui contra, apesar de ser minha especialização), fazer em HTML deve depender da audiência e do que a plataforma permite, não do cliente. O cliente não nos ouviu, quis em Flash porque achava que era coisa “de rico”, e depois ficou indignado porque não podia ver o site.

    (Esse o cliente tinha vários “diretores”, então era comum haver desacordo no que cada um queria).

    Nooossaa Fernando… mas suas histórias são ilárias, daria um bom episódio do Causos Reais de um Webdesigner. Conhece? Veja aí: http://www.causosreais.com.br

    Valeu Zeh, seu comentário foi importante para atualizar ainda mais essa pizzaria. Abração!

    22-05-09 » 6:39 am »

  • Ivanberg Moreira

    Ops!
    Muito bom!
    Fica bem mais prático, lembrar do exemplo da pizza… e dá até pra usar como ilustração para explicar ao cliente os motivos dos “sims” e “nãos”..

    Dia 23? Fortaleza? Alternativa Web 2009?
    Não me diga q eh isso?
    Não encontrei nada na web falando do evento…

    Não, não Ivanberg, é que o Alex virá a passeio para Fortaleza e eu não terei como encontrá-lo por motivos de força maior. ;)

    22-05-09 » 11:40 am »

  • Flavio Mendes

    Brunildo, você e seus comentários hilários: “E que se lasque a moda.” :D

    22-05-09 » 12:06 pm »

  • Teka

    Eu gostei muito da matéria… e me deu fome de pizza.. heheh

    22-05-09 » 1:22 pm »

  • ANDERSON

    Show esse post, que vontade de mandar pra alguns clientes!

    22-05-09 » 2:10 pm »

  • zeh

    O problema, eu vou ser sincero, nem é tanto de alguns clientes, mas da empresa. Cliente ‘ruim’ ou pouco instruído sempre vai existir, mas cabe à empresa convencê-lo sobre o que é eficiente ou não, e descartá-lo caso ele insista em fazer trabalhos ineficientes.

    Pra mim esse é exemplo bem pessoal também, porque depois que saí da empresa que originou a lista, as coisas mudaram da água pro vinho de uma forma inacreditável, simplesmente devido à forma como a nova empresa pra onde fui trabalhar atendia o cliente: menos puxa-saquismo e mais objetividade.

    Vou fazer um follow-up do artigo depois falando melhor disso.

    22-05-09 » 9:16 pm »

  • BRUNO

    MUITO BOM…PARABÉNS ZÉH E ÁVILA!

    ABRAÇOS!!!

    03-06-09 » 3:14 am »

  • Rodrigo

    Bem interessante o texto, realmente acontece disso para pior, não sei já trabalharam com aqueles Nerds da época antiga, que entrou agora na era da web, e utilizam recursos que utilizavamos a 10 anos atrás, e acham que sabem tudo, cada site que dá ate medo de ver, alguns tem até uma ideia interessante, mais aplicam de forma errada, e acaba espantando os visitantes… bom, parabéns!!!

    08-06-09 » 2:49 am »

  • Christiano

    Noooooosssssaaaaa!!!!

    Adorei esse texto. Caiu como uma luva aqui na empresa. Tenho tentado, sem sucesso, mudar a “mentalidade” da forma como se trabalha aqui.

    Ao ler esse texto me senti fortalecido e incentivado a continuar nesta direção…

    22-01-10 » 7:43 am »

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