Rede Globo admite que era mais feliz antes da internet


internetxtv “Éramos felizes e não sabiamos”. Essa frase partiu da boca do diretor de engenharia da Rede Globo, Fernando Bittencourt, dita na última sexta-feira no 5º Fórum Internacional de TV Digital, ao comentar a queda da audiência da TV Aberta frente a novas mídias, sobretudo a internet.

Não sei se vocês perceberam, mas estamos diante de um marco histórico. A maior emissora da TV brasileira afirmando, pela primeira vez, que estão perdendo telespectadores para nada mais nada menos que a internet.

Ora, lembro, há 10 anos, muito publicitário por aí dizendo que a internet não substituiria a TV. E podemos ver que não substituiu mesmo. A TV que foi para a internet.

Pessoas do mundo todo hoje possuem a oportunidade de produzir, publicar e divulgar entretenimento em vídeo, coisa que antes só as emissoras de TV podiam fazer.

Antes não podiamos ter uma Folha de SP, mas hoje podemos ter um blog ou um site que pode ser influente tal qual a Folha. Antes não podiamos ter uma Rádio CBN mas agora podemos criar nosso programinha de “rádio” através dos podcasts e ter  audiência maior do que muita rádio do interior com custo praticamente zero. E agora, quem quiser ter seu programa de TV que tenha! Todo mundo pode ter! Basta ter uma estrutura mínima: um celular com vídeo, desses que dão de graça nos planos de fidelidade das operadoras. Pronto, mandou pra internet, tá lá pro mundo ver.

E agora Globo? E agora Record? Estamos todos dando risadas, gargalhadas de felicidade.

Outra notícia que deixarão as emissoras ainda mais tristes: em julho, os brasileiros bateram novo recorde mundial em horas conectadas, 24 horas e 54 minutos. Ficou a frente da Alemanha, Estados Unidos, França e Japão. E sabe porquê? Por causa dos jovens. Segundo o Ibope, a internet foi a principal atividade por parte dos jovens estudantes que estavam de férias. E Alexandre Sanches, gerente de análise do Ibope, complementa:

“A relação que o usuário mais jovem tem com a internet é de paixão extrema, ao contrário das gerações que nasceram sem a web”

Agora pense comigo: se a geração jovem de hoje tem paixão extrema pela internet, o que elas assistirão daqui a 10 anos, quando tiverem mais de 20 anos? Os mesmos programas de auditório de sempre ou conteúdo gerado por pessoas comuns como eu e você, que pode entreter muito mais do que a dança dos famosos?

Para as emissoras de TV é preciso pensar, o quê fazer? Numa situação dessas não dá pra ser feliz. Felicidade era colocar novela das 6, 7, 8, emendar com uma minissérie e assim tava tudo beleza. No outro dia era a mesma coisa e pronto, não era preciso pensar muito na programação de amanhã.

O problema é que pelo menos a Globo não está enxergando muito bem esse futuro. Para quem não sabe, na TV Digital as emissoras podem transmitir até 4 programações diferentes no mesmo canal. Isso daria a possibilidade de escolha do telespectador entre inúmeros canais. O problema é que a qualidade de vídeo não seria em alta definição mas semelhante a qualidade que temos hoje com as TVs analógicas. Sobre isso, Bittencourt, da Globo diz:

“não tem muita razão a multiprogramação. Com ela, você abre mão da alta definição –isso para mim é fatal. Entre uma e outra fico com a qualidade [de imagem].”

É Bittencourt, mas os jovens de hoje, apaixonados por internet não estão nem aí para qualidade de imagem. Esses mesmos jovens que seriam seus telespectadores daqui a 10 anos, na realidade preferem hoje uma qualidade muito inferior ao da TV. Basta ver o fenômeno chamado Youtube.

Então pergunto: o que você prefere? Assistir Gugu em alta definição, podendo ver inclusive como ficou, em detalhes, sua última aplicação de botox ou um programa interessante, de bom conteúdo, que entretenha, mesmo em qualidade inferior?

Deu hoje na Folha: Chip de TV analógica para celular aposta em baixa adesão ao sinal digital. O pessoal tá super feliz com seus celulares que pegam TV com chuvisco. Será que o que importa mesmo é a qualidade de imagem ou o conteúdo?

Aí o amigo publicitário diz: mas quem vai pagar esses programas feitos por qualquer pessoa Bruno? Respondo com outra pergunta: você conhece Adsense?

Ih, o publicitário também era feliz e não sabia. Mas aí já é papo pra um outro post.

Para o alto e Avante!


Esse texto te ajudou? Então porque não pagar um cafezinho para o Bruno? Aceitamos moedas.



6 comentários

  1. Pedro Barroso Aug 28

    Pelo meno se a televisão gratuita no brasil tivesse programações de qualidade, não essa coisa enjoativa que e gugu, programas do silvio santos, faustão e etc. A televisão concerteza seria muito mais atrativa.

  2. Edson Aug 28

    O problema da TV brasileira é que ela parou no tempo a muito tempo. Ela não oferece nada de novo, nada que entretenha mais o que trinta minutos. Um site de relacionamentos como Orkut, em alguns casos, faz as pessoas ficaram o dia inteiro trocando recados e enviando mensagens.
    O fenômeno Youtube, como citado acima, me dá oportunidade de assistir o que perdi na TV. Posso ver qtas vezes quiser. Um exemplo é o programa O Aprendiz. Só assisto pelo Youtube. Pra que perder outros compromissos pra ver na Tv o que posso ver e rever e rever e rever no Youtube. E a qualidade? Se dane a qualidade. Isso é só questão de tempo. Com a internet em alta velocidade isso vai acontecer antes do que possamos imaginar.

    Realmente a internet veio pra mudar o mundo e quem não se atualizar e se acostumar com ela estará fadado a dizer o que o nosso amigo Fernando Bittencourt acabou de dizer.

  3. Liba Júnior Aug 28

    Olha aí! Bruno, vc me lembrou bastante agora o Arnaldo Jabor falando… Excelente post! Muito bom mesmo…

    Um forte abraço!

  4. Leo Cabral Aug 28

    No meu ponto de vista, essas afirmações devem ser vistas com ressalvas prudentes. Se por um lado há o acesso à informação e o acesso à produção da informação dando a cada cidadão a possibilidade de registrar o cotidiano a partir do seu ponto de vista, ainda há a questão do abismo da exclusão digital como fator determinante dos investimentos aplicados e a expecativa de retorno do mesmos. Num país onde a TV sempre teve a posição como (de)formador de opinião e franca abrangência nacional a tendência é a TV aberta se tornar algo ainda mais massificado e a qualidade cair em comparação com as TV´s voltadas para o público digital e economicamente favorecido.

  5. Diego Aug 28

    Enquanto a internet (blogs, sites, youtubes) continuar a reproduzir o conteúdo da Globo, da Folha, da Reuters, da CNN e de veículos que, enfim, produzem, não só reproduzem, acho que esse futuro pintado por você estará bem longe de tomar forma.

    (e me diz um site ou blog brasileiro tão influente e respeitado quanto a Folha?)

    Globo, Folha, CNN, Reuters, vão continuar a existir e sendo referência de credibilidade ( há quem não concorde, claro ). O que mostrei foi apenas que eles nesse momento estão tendo que mexer seus pauzinhos, mudar aquilo que vinha fazendo igual há mais de 30 anos, por conta das novas mídias.

    Quanto a influência, sim, existem muitos blogs influentes tal qual Folha. Muitos blogs inclusive servem como fonte de notícias para jornalistas da mídia tradicional. A diferença é que no caso do blog a influência é segmentada, diferente da Folha que é geral, até porquê é dividido em editorias. Por exemplo, para um político, o blog do Noblat tem credibilidade tal qual O Globo (que utiliza o blog do próprio como fonte). Para um usuário de Linux, o blog BR-Linux é muito mais influente que uma revista Veja. Já para um publicitário, Blue Bus influencia muito mais do que o Estado de SP. E por aí vai…

  6. André Rocha Aug 29

    Bacana!

    Creio que esta discussão desmistificou a TV brasileira como centro do universo em comunicação. E concordo com o Bruno em partes.

    É claro que os jovens da geração web têm inúmeras janelas de TV, rádio e tudo o mais que a tecnologia hoje permite que se faça. No entanto, não haverá produções de TV com os grandes ídolos do teatro, da TV, da música que tanto encantam e influenciam qualquer geração. E sabe por quê? Porque custa caro pagar um ídolo. É claro que na internet surgirão outros artistas, talvez até de alto nível profissional, mas do mesmo jeito efêmero que surgirão, vão desaparecer com a velocidade que a internet impõe.

    Quem vai fazer TV na internet sem ganhar nada por toda sua vida? Com que dinheiro vai comprar uma câmera digital, um PC, se locomover em busca de conteúdo sem dinheiro, mesmo que seja pouco? Por prazer, diversão, “paitrocínio”, pode até dar certo durante um tempo. Mas, e depois? Como viver da TV fazendo TV de graça a custo zero e com conteúdo? Mais dia, menos dia o cara tem se profissionalizar…

    É utopia achar que a internet substituirá a TV. E, como o próprio Bruno falou, a TV já está lá.

    É nisso que acredito. Numa fusão gradativa da TV com a internet. Uma única tela, grande, na parede de sua casa onde poderá assistir todo, e qualquer programa transmitido pela internet na sua televisão.

    Um dia a Tv convencional vai acabar, mas não se enganem a internet não é a solução final, assim como o rádio um dia parecia ser quando TV apareceu.

    Valeu Bruno! Boa discussão.

    André Rocha

    Publicitário, 36 anos, geração Coca-Cola

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