Finalmente, a Internet encontrou seu rumo


Quando a imprensa foi criada pelo alemão Johannes Gutenberg, por volta de 1450, não existiam muitos títulos a serem publicados. Afinal, praticamente não existiam escritores. A Bíblia, um dos livros mais antigos do mundo, atravessou séculos sendo escrito a mão pelo clero, porém tornou-se o primeiro título a utilizar a famosa prensa de Gutenberg, multiplicando seus exemplares e popularizando-se.

Com o passar dos anos, a escrita e o conhecimento se tornou acessível a um número maior de pessoas. Podemos considerar a invenção do livro como o primeiro meio de propagação de idéias em alta escala.

Já no início do século passado tivemos uma enxurrada de invenções que iriam transformar a comunicação no mundo. O telefone, o fonógrafo e o cinema são algumas delas. Porém, vamos dirigir nossa atenção primeiramente ao Rádio.

O rádio chegou no Brasil em 1922. O então presidente Epitácio Pessoa abriu a primeira transmissão de rádio do País com um discurso. O sinal foi transmitido no Rio de Janeiro através de uma antena colocada no Corcovado. Receptores foram espalhados em Niterói, Petrópolis e São Paulo. No Rio, foram colocados alto-falantes em alguns locais, deixando a população de boca aberta ao ouvir o estrondo das caixas que ecoavam “O Guarani” ao vivo do Teatro Municipal, regido por Carlos Gomes.

A história que se seguiu é bem interessante. No início a Rádio MEC, uma das primeiras do Brasil, tinha o intuito de levar educação e cultura à população brasileira. Imagine, aulas sacais, de matemática à história, onde um locutor apenas falava e nada mais. Uma tentativa de levar a escola até o Rádio. Claro que seria um fracasso, levando a rádio a quase declarar falência por falta de audiência e de dinheiro. Depois começaram a surgir algumas rádios que trouxeram a música e a publicidade para a programação. Foi então que o rádio se encontrou e surgiu os programas de auditório, as cantoras do rádio e sua era de ouro, onde a publicidade bancava tudo.

Até que apareceu a televisão. Quando a TV Tupi foi lançada em 1950 por Assis Chateaubriand, nada se sabia sobre TV. Profissionais da radiodifusão foram alocados na emissora, trazendo a linguagem do rádio para a telinha. Trouxeram o telejornal lido no papel, os programas de auditório do rádio e as rádio novelas que misturado ao teatro, se transformou em telenovelas. A linguagem da televisão era precária, quem viveu essa época viu muita improvisação e não se sabia direito como ganhar dinheiro com ela. Os anúncios publicitários eram nada mais que jingles de rádio, executados ao vivo antes da criação do videotape.

A televisão brasileira só encontrou um rumo com a criação do padrão Globo de se fazer TV, criada por José Bonifácio, o Boni, e Walter Clark. Até hoje, depois de 40 anos, as emissoras continuam tentando seguir o padrão criado pela Rede Globo, chegando a imitar descaradamente toda sua programação e identidade visual (leia-se Rede Record), numa tentativa de tirar o seu primeiro lugar de audiência.

Foi aí que em 1995 surgiu no Brasil a tal da Internet. O início não podia ser diferente do livro, do Rádio e da TV. Vamos recapitular: nas primeiras impressões de livros no mundo, não se trouxe nada de novo a não ser impressões da velha bíblia. No rádio, não se trouxe no início nada de novo, apenas discursos de políticos, professores e leituras de jornais impressos. Na TV, em suas primeiras transmissões, vimos apenas o que já existia no rádio, numa tentativa de adaptação.

Na internet não seria diferente.

O Jornal do Brasil foi o primeiro jornal online brasileiro. O que se tentou por alguns anos foi trazer o formato do jornal para a rede. Veja abaixo um antes e depois.

internet-rumos-jb.jpg

Note a diferença gritante no formato de comunicação. Em 1996 o que se tentava era reproduzir na internet o que já se tinha, no caso o jornal. Ninguém sabia como fazer a coisa funcionar bem na internet. Foi a primeira vez que vimos trabalhar no mesmo ambiente, jornalistas, publicitários, analistas de sistema, programadores, designers e administradores.

Enquanto o jornalista tentava jogar na Internet tudo aquilo que sabia fazer no jornal impresso, o publicitário tentava trazer as “tifs” de 50 megas, transformando em pequenos arquivos gif de 2 megas e tacando nas páginas, dizendo que aquilo era um anúncio do tipo “banner”. ( É verdade, uma vez recebi de uma agência um banner de 2 megas para ser colocado num portal de notícias. Erro comum naquela época ). Para que esse conteúdo fosse pro ar de uma maneira decente, entrava em cena o criativo das agências de publicidade, acostumados a trabalhar com layouts impressos, sem nunca ter ouvido falar em menu de navegação ou usabilidade. Pra que essa máquina pudesse funcionar, entrava em cena o programador e o analista. Enquanto isso lá na outra ponta, o administrador tentava organizar todo esse conjunto.

Porém, nem sempre era assim que funcionava. O programador, que nunca tinha ouvido falar em gestalt na vida, pegava um photoshop e a partir dali tentava fazer um layout. Já o publicitário abria um bloco de notas e tentava fazer um formulário de email, programando. O jornalista saia na rua tentando vender anúncio para o seu portal de notícias. Resumindo: uma confusão só. Até aí podemos ver o que a convergência das mídias acabou provocando. ;)

Treze anos se passaram e hoje podemos dizer que já temos uma linguagem de internet. Um exemplo claro disso está no exemplo abaixo, onde mostro uma página interna da Folha de São Paulo em 2000 e em 2008.

internet-rumos-folha.jpg

Note que os banners, nada mais que anúncios animados inspirados em outdoors eletrônicos que possuem um tipo de anúncio bem semelhante, estão desaparecendo. Hoje já vemos um tipo de anúncio que dá muito mais resultado que o banner animado e que, na internet, funciona muito bem, os links patrocinados ou anúncios texto.

Parecido com pequenas chamadinhas de anúncio de classificados, ele tem um diferencial importante que faz com que ele seja unicamente da internet, funcionando apenas nela: é possível clicar no título, diferente do anúncio de classificado que apenas se lê. Além disso o link pode-se relacionar com o assunto, dando ao anúncio um poder maior de atração.

Outra coisa fantástica é que pessoas comuns estão virando veículos de mídia publicitária, utilizando ferramentas como o Google Adsense. Sobre isso, falarei mais na frente para que este artigo não fique muito extenso. Mas trata-se de uma nova forma de publicidade, sendo um advento proporcionado pelo meio internet.

Portanto, o que vemos hoje não são mais jornais que ficam parados como se ali fosse a edição do dia, com notícias de ontem. As notícias são atualizadas a cada minuto. Os banners não são mais inspirados em outdoors, tem sua linguagem própria criada a partir da internet. Ferramentas online proporcionaram a todos a possibilidade de se ter um jornal, sua rádio ou sua televisão sendo divulgado para todo mundo. Tudo isso criado dentro da internet, utilizando uma linguagem única de comunicação.

Acho que estamos vendo a internet, finalmente, encontrar seu rumo, a exemplo do que aconteceu um dia com o livro, o jornal, o rádio e a TV. Por isso, sinta-se pioneiro.

Para o alto e avante!

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Comentários

Muito bom o artigo, meus parabéns…

Realmente, a internet hoje tem a sua própria linguagem digamos assim, mas para que isso ocorresse, foi necessário muita paciência e criatividade.

Gostei do artigo.

=D

Show de bola esse artigo.
Essa evolução da internet realmente é bem visível para quem já “navegava” nos anos 90. Lembro dos layouts quadrados e das cores berrantes. Hoje tudo está mais “clean”. Ainda veremos muita coisa nova surgir na internet e daqui a alguns anos estaremos escrevendo outro artigo como esse…
Parabéns Bruno!

Muito bom o artigo. Parabéns!

Sempre que posso passo aqui para ver suas opiniões nas matérias. Parabéns novamente! Como anda os Causos Reais ?!

Abraços e Parabéns!

Show de bola. Boa matéria como sempre. Meus parabens Bruno. Forte abraços.

Interessante este seu artigo. Você sempre estabelece uma comparação entre os sites do “passado” com os atuais, mostrando a evolução da internet em vários sentidos.

Este tipo de artigo é de grande importância principalmente para quem não navega na internet desde 1996 em diante e não teve a oportunidade de acompanhar continuamente o crescimento da web desde aquela época.

Parabéns!

Tá de parabéns pelo artigo
muito bem escrito, da uma boa luz para web designers iniciantes como eu =D
abraços
fica com Deus
té mais